
Existem histórias que precisam ser contadas. Não por sentimentalismo ou para provocar comoção, mas porque exemplos de solidariedade merecem ser compartilhados. Há acontecimentos que o tempo não apaga. Eles permanecem vivos na memória para nos lembrar que, mesmo nas fases mais difíceis, o bem ainda transforma vidas.
Em 2006 vivi o período mais difícil da minha história. Estive internado em Belo Horizonte, lutando entre a vida e a morte. Ao sair da sétima cirurgia, no início de abril daquele ano, recebi a notícia de que meu irmão, que também era meu sócio no supermercado, havia falecido. Não pude me despedir nem acompanhar seu sepultamento. Foi uma dor impossível de descrever.
Dezenove dias depois, ainda muito fragilizado, recebi alta e voltei para Barroso. Quando cheguei ao supermercado, encontrei prateleiras vazias, dívidas acumuladas e uma situação financeira extremamente delicada. Tudo aquilo acontecia apesar dos esforços dos funcionários e de pessoas próximas que tentavam segurar a situação como podiam. Além da perda do meu irmão, existia o risco real de perder também o negócio construído com tanto esforço.
Liguei para José Orlando de Melo, então proprietário do Supermercado Melo, e pedi que comprasse o nosso supermercado. Ele recusou imediatamente. Disse que não compraria e que eu também não deveria vender. Na verdade, recebi uma suave bronca. Ele afirmava que eu tinha capacidade para dar a volta por cima. Depois de longos minutos me encorajando, colocou-se à disposição para emprestar mercadorias e recompor o estoque até que a situação melhorasse. Dali em diante, começava uma nova etapa da nossa história.
Tenho a mesma gratidão pelo Geraldo Almeida e pelo Zé da Brasileira, que já nos deixou, pois também estenderam a mão naquele período difícil; assim como outras pessoas, de diferentes formas. Mas a confiança que José Orlando depositou em mim foi decisiva. Ele me incentivou quando eu já não acreditava mais que poderia dar a volta por cima.
A dívida financeira foi superada com muito trabalho e perseverança. A dívida de gratidão, porém, permanece; e faço questão de carregá-la com muita honra.
José Orlando nunca fez questão de divulgar o que fazia. O que realizou por mim foi apenas um entre tantos gestos que ajudaram inúmeras pessoas de Barroso, sempre com discrição e generosidade. Ele fez da solidariedade sua maior herança.
Hoje me despeço não apenas de um grande amigo, mas de um exemplo enorme. Que sua atitude continue inspirando todos nós.