

A inteligência artificial é realmente algo extraordinário. Consegui recuperar, por meio do amigo Eustáquio, uma foto que, pelo estado de conservação, eu já considerava perdida para sempre. Não é uma foto qualquer. É uma imagem simples, talvez irrelevante para muitos, mas carregada de um significado profundo para mim e para toda a minha família.
Eu tinha aproximadamente 10 anos quando a casa que meu pai havia construído com tanto sacrifício começou a ceder, depois do rebaixamento da rua, na parte baixa do Bairro (Guede). Não houve outra escolha senão terminar de derrubá-la. O ano, acredito, era 1969. Tempos duros. Éramos oito pessoas dependendo do esforço diário do meu pai.
Ali, diante de uma cerca improvisada, aprendi uma das lições mais importantes da minha vida: dinheiro vem do trabalho, do esforço, da dedicação. Aos sábados, nosso vizinho, conhecido como Deco Baldoino, me entregava os seus sapatos, entre os vãos da cerca, para eu engraxar. Eu cuidava do serviço com atenção, e ele me pagava com algumas moedas. Foi assim, com mais ou menos 8 anos, que dei meus primeiros passos no mundo do trabalho.
Por isso, até uma imagem marcada pelo sofrimento pode guardar memórias valiosas, força e aprendizados que moldam quem somos. A dor é inevitável, ela de fato existe, mas também existe crescimento, basta olhar com o coração aberto. No fim, a vida se parece com aquela cerca torta do passado, improvisada por falta de condições financeiras, mas que, mesmo cheia de falhas, ainda podia nos ensinar o caminho certo.
Portanto, lembre-se: por pior que seja o momento, nada está perdido. Dos escombros, sempre brotam lições.
